sexta-feira, 13 de abril de 2012

Grémio do Carmo

Podem encontrar a segunda post sobre este local aqui.

O Grémio foi uma super surpresa, abriu há bem pouco tempo e graças à Margarida pude descobrir este fabuloso local, três vivas! A entrada faz os mais desconfiados pensarem tratar-se de uma partida de mau gosto: ou se entra pela Merrell da rua do Ouro ou por uma loja de selos na rua do Carmo, nós fomos pela via dos sapatos, entrámos no elevador, premimos o botão terrivelmente apetecível e lá subimos.

E bem, deparei-me com muitas coisas boas, entre as quais brinquedos, um quadro de giz, uma longa mesa diferente das mesas que estamos habituados a ver nos cafés. Não, esta parecia convidar gente a juntar-se e a conversar, parecia uma mesa de parque de acampamento mas com classe.

Na zona da mini biblioteca havia imenso material curioso para explorar: um sofá gigante preto tentava atrair o meu rabo para que me sentasse e nunca mais saísse, mas primeiro, conversa! E o dono parecia estar mais que disponível para responder às minhas incessantes perguntas, my kind of guy!

E assim fiquei a saber que muitas das coisas que se encontravam no estabelecimento eram reaproveitamento de antigo material de uma livraria da rua do Carmo que fechou há pouco tempo, desde livros, a um ou outro objecto de mobília e também alguns ornamentos peculiares como tabelas de categorias, que antes serviram para enunciar secções de biblioteca e agora estão apenas a servir de adorno. Numa podia ler-se "doenças do fígado", noutra, "terapêutica", palavras muito encorajadoras para um café, mas eu sempre gostei do toque irónico.




Os preços tornam tudo apetecível, a Margarida pediu uma sandes de salmão fumado por 3€ e eles serviram-nos a dita acompanhada de um jarro de água. No menu podiam ler-se nomes estranhos (para mim) mas interessantes: prova de filtro, esta ainda não está operacional, mas vai ser possível provar café que promete ser único no seu sabor, um novo conceito? Esperemos que resulte! As palavras na ardósia falam também numa sugestiva cerveja de gengibre (conseguirei eu gostar de tal coisa?) e de uns sumos gaseificados, entre os quais o sabor maçã/melão que acho que provarei quando lá voltar na esperança a que saiba à minha amada cidra alcoólica.




Há mais alguns pormenores interessantes para reparar, as garrafinhas de condimentos, as caixas que fazem de prateleira para os livros, as luzes, a bicicleta na parede, contudo, o espaço é pequeno, mas através de várias divisões parece transformar-se em três lugares diferentes, este local está bem localizado, demasiado bem! Quero que tenha sucesso mas ao mesmo tempo é bom ter estes espaços mais íntimos, partilho aqui a dica, e acabo com uma página de uma curiosa revista que tive o prazer de folhear enquanto a Margarida me deixava umas côdeas para eu mordiscar. Fica para todos: What is it you love about movies?



Jardim de Belém

Passeata amena pelo jardim de Belém em modos de fazer a digestão, aturando putos reguilas a criticar o novo monumento que recebemos da Tailândia, a denominada Sala Thai.

Esta prova de respeito não apaga o facto de eu a achar completamente deslocada, mas bem, converge agora com o verde do jardim este vermelhão com ares chinocas cuja função é meramente decorativa, temos de nos acostumar, desconfio é que será tomado pelos sem abrigo ou por grupos de drogados, se assim for, ao menos tem alguma utilização.





Notei numa miúda engraçada sentada sozinha na relva, loira de olhos azuis, tinha um ar estrangeiro, fazia-me lembrar uma rapariga da minha faculdade. Que bem que se passeia neste jardins, a mirar gentes e inventar histórias por detrás de roupas peculiares, esgares emocionais e movimentos insólitos.


O Careca

"Ò careca tira a bóina!"

Lembro-me de uma amiga da minha mãe se fartar de dizer esta frase cada vez que nos referíamos ao velho Careca, café de excelência dos meus tempos de primária, a minha mãe vinha para aqui socializar e eu era arrastada mas entretinha-me, nessa altura entretemo-nos com tudo, jogava à macaca ou andava a correr de um lado para o outro feita parva, a fingir que estava numa história de ficção, ah, ser jovem e despreocupada.


Hoje senti-me mais-ou-menos da mesma maneira quando vim cá provar os famosos croissants carequianos. Não sei se cheguei a prová-los em petiz, mas se provei esqueci-me do sabor, nessa altura, contudo, acho que gostava mais de queques, de os comer tirando as maminhas primeiro, e gostava também de umas bolachas amarelas estranhas, pequenas, ovais e consistentes, com metade sem nada e a outra metade coberta de chocolate. Umas dessas tinham compota de morango por dentro, mas em miúda odiava juntar fruta ao chocolate, e ainda não é das coisas que mais gosto: comida saudável disfarçada.

Pedi dois croissants com a Margarida, estaladiços e cheios de açúcar, uma espécie de brunch pouco saudável, e ainda voltámos para mais um que dividimos (esse estava quentinho!), tentámos procurar em vão outra coisa que nos satisfizesse o apetite mas não vale mesmo a pena: mais um croissant e mais 1.20€ para a senhora da caixa.

Lá fora e cá dentro, comemos na esplanada e no interior, o tempo estava uma caca manhosa, aquele tipo de tempo em que o Sol parece uma lâmpada fundida, num minuto estamos à sombra, no outro estamos a tirar os casacos com calor, noutra altura vem uma ventania danada que nos leva os guardanapos, merda, ao menos no interior só temos de levar com a gritaria das crianças e com o cheiro das pessoas que lá vão, hm... Pensando bem, venha o frio!




Pensamento à parte: porque é que as sirenes das âmbulâncias e INEMs são tão inconstantes? Parece que tocam durante algum tempo e de repente se engasgam e começam a tossir mas em forma de buzina, não percebo, porque não um tinoni regular? Parece que querem provocar enfartes aos velhinhos, irónico.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Wanli (2)

Podem encontrar a primeira post sobre este local aqui

De volta ao Wanli, estava ansiosa por cá vir confesso, depois do último serão ter acabado às duas da manhã, numa agradável conversa com o dono enquanto este fechava as portas do estabelecimento, fiquei com a sensação de que este local me poderia contar muito mais, e regressei, e regressarei quantas vezes forem precisas.

Às 14h da tarde vim cá almoçar com a Carolina, já tinha aconchegado o estômago com bolachas de água e sal mas continuava com uma senhora dona fome. Estava com vontade de experimentar as tostas, e os bolos do século XVIII! Sim, esses ficaram-me bem encravados!



Sentadas no mesmo sofá de sempre, nem olhámos para o menu, disseram-nos: há tostas de queijo brie com fiambre, presunto e doce. E para mim fiambre foi, tostas fininhas, estaladiças, que não enchem muito mas alimentam o suficiente. Apesar de tudo, foi-nos proposta uma segunda dose sem pagar se ainda continuássemos com fome, mas como já estávamos de olho na sobremesa pedimos uma fatia de bolo de laranja e uma de bolo de chocolate e gengibre, e dividimos irmãmente esta doçaria centenária, altura em que me lembrei que não tinha fotografado as tostas, maldição! Fica a minha palavra de que são boas, cremosas e cheias de orégãos (mas só se quisermos claro).

Pequeno pormenor engraçado: enquanto estava sentada reparei que o dono do local, quando não tem ninguém para atender, se senta tranquilamente numa cadeira do lado de fora do café fumando pensativo o seu cigarro. Dir-se-ia uma pequena esplanada particular.

Quanto aos bolos, o bolo de laranja é de facto muito bom, com duas texturas diferentes, uma mais consistente, outra mais húmida, que só notamos ao comer. O bolo de chocolate é bom mas demasiado pesado, apesar de termos dividido a fatia, sentimos que ainda assim a dose era bastante maçuda e caia como um pedregulho no estômago. É como se fosse uma mousse de chocolate negro em formato de bolo (não sei bem se leva farinha, talvez uma colher no máximo). Para quem gosta bastante do sabor forte a chocolate recomenda-se, eu admito ser menos fã de cacau em formato pastelaria, mas mesmo assim experimentei e não me arrependi.


Na hora de pagar, a conta foi 8€ para cada uma o que me espantou um bocado, terá sido dos doces? Há casos em que a idade não desactualiza mas confere valor, este poderá ser um deles.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A Padaria Portuguesa

A Padaria Portuguesa abriu finalmente na Baixa, tinha de acontecer, afinal de contas se temos americanices como o Starbucks por estas bandas (e logo dois!) temos de ter concorrência da casa, se bem que não tem nada a ver, adiante.

As gentes viajadas decidiram marcar um petit café às duas da tarde, eu, o Nuno, o Diogo, e a Margarida (faltou a Catarina). Era para falarmos da viagem propriamente dita, mas deriva sempre para a faculdade, e porque não? Quando pensamos saber tudo há sempre uma novidade antiga, adormecida durante meses para ser finalmente despejada num ocasional serão.

O galão da praxe foi pedido, desfrutado, e apreciado com adoçante como o habitual, custou 0.95€, que era basicamente o que eu tinha na carteira em moedas. A Margarida ainda não tinha almoçado e aproveitou o menu de 5€ em que se tinha direita a uma sandes jeitosa, um sumo natural e uma sopa, mas melhor ainda foi a tartelette de limão merengada que o Diogo teve a ousadia de pedir para levar no final, da qual ainda provei um bom pedaço e posso dizer que estava mais do que deliciosa, eu que nunca tinha provado tal iguaria. Ah, esse pequeno prazer gastronómico custou 2€.

Esta padaria/café/pastelaria tem preços bastante acessíveis e o local é até bastante agradável e lógico. Para quem quer pedir, tira uma de duas senhas: pedidos para levar ou para consumir no estabelecimento, depois é só passar os olhos pela montra e tentar escolher algo. As variedades de pães são incríveis, desde os mais comuns a pão tigre ou broa com enchidos, bolos para levar para casa também estão disponíveis, mais até do que bolos para comer, mas pode-se optar por um queque, mini pastéis de nata, palmiers, bolachas, caracóis, etc, vão lá e vejam por vocês mesmos. Depois podemos subir umas escadinhas e escolher um local para fofocar e deglutir açúcares.

O único senão que arranjei foi mesmo a casa-de-banho, à qual se tem acesso pela mesma escadaria só que descendo, mas para lá ir tem que se pedir as chaves, algo bastante aborrecido, porque consiste basicamente em dizer à frente das pessoas do café: hey, dê-me as chaves para eu ir esvaziar a bexiga. Não é propriamente agradável, principalmente quando descobrimos isso só depois de lá ir abaixo e temos que voltar para cima.

domingo, 1 de abril de 2012

A Merendeira

No mesmo dia mas num post diferente, achei de extrema importância referir este sítio, porque tem com todas as certezas do Mundo, para mim, os melhores pães com chouriço. É-me simplesmente impossível recursar para 2€ por um destes, impossível.

Há muitas razões:
- Têm bastante chouriço;
- São acabadinhos de fazer em forno de lenha;
- São meios enfarinhados;
- São mal cozidos;
- Adoro aquela textura enrugada do pão;
- São gigantes;
- São moles por dentro e estaladições por fora;
- Alimentam que se farta;
- São baratos par ao que são;
- São MESMO bons.

O local em si é grande e espaçoso, com grandes portas abertas que reflectem a sua natureza de passagem ou de posto para recuperar energias após uma longa noite. Para além destes maravilhosos pães, não esquecer o caldo verde, arroz doce, pastéis de bacalhau e outras tantas coisas, mas nada supera o pão, e cada vez mais reparo que onde há pão, há gente portuguesa, somos atraídos por este alimento como abelhas ao mel.

Wanli

Podem encontrar a segunda post sobre este lugar aqui.

Não sei como é que nunca tinha pensado nisto, mas é um facto de que todo o local tem um nome, e esse nome, tal como muitas outras coisas, funciona como extensão do próprio local, estando intimamente ligado à sua imagem. Como o nome deste blog, é a primeira impressão que temos de algo, e como tal pode servir como impulso para que sintamos curiosidade de investigar aprofundadamente uma coisa. O nome Wanli, como me disse o dono, ex-professor de história de arte na Católica, é solidariedade para com os nossos inimigos. É o nome de um imperador chinês da dinastia Ming, fazendo referência também a um dos muitos adornos colocados na parede: um prato azul e branco, pertencente a esse reinado, que se encontra por cima do telefone preto à antiga.



Fui acompanhar o meu amigo João a Santos, incumbido de fazer o papel de irmão mais velho e manter-se nas redondezas enquanto a irmã saía pela primeira vez. Prometeu que me pagava a paciência, como se eu estivesse a fazer algum sacrifício em sair, este rapaz não existe.

De qualquer dos modos, à procura de um local decente para ficar não havia muita escolha possível: tinha que vir cá dar ao Wanli, porque ir abanar a bunda para os Marretas e beber shots à brutamontes é uma fase que teve o seu momento algures no secundário.

Lembrei-me então desta pequena sala de estar. E lá entrámos, éramos os únicos à excepção de um grupo mais velho sentado numa das mesas da primeira divisão, mas nós fomos para o conforto da sala do fundo, com os sofás de couro, a pilha de revistas Time Out, a lareira esquecida e, o meu pormenor favorito, uma espécie de fonte onde nadavam tranquilos alguns peixes cor-de-laranja.



Noite paga, não houve tentativas de contenção: bebi um Martini Rosé com limão e gelo (3€) que a muito me soube e, só porque sim, venha também um Vinho do Porto Rosé com laranja, hortelã e gelo (3.50€), tudo devidamente acompanhado de duas doses de batatas fritas, servidas com um sorriso pela rapariga que lá estava, loirinha, sotaque alemão, um amor, e era mesmo isso que eu estava a precisar: boa gente. Depois de todos os mal encarados dos últimos dias.

Olhando para a lista de preços reparei que a selecção de tostas e sandes é muito interessante e fica entre os 1.50€ e os 3€, feitas em pão de lenha (dito pelo dono). O prato do dia é 5€ e a sopa 2€. Aqui tudo é ponderado, tudo tem história, os bolos vêm de receitas do século XVIII descobertas pela sexta ex-mulher do proprietário. Comida e ornamentos, as coisas têm uma razão de ser, não estão só por estar, e em cada elemento colocado na parede ou nas mesas pode ser encontrada uma peripécia, um bom tema de conversa, não descurando que são pertences de um professor de história, quem melhor para nos satisfazer essa curiosidade?